A espera pelo certo nem sempre é uma boa opção – Por Willian Eduardo Braga

20/08/2025

Montagem teatral: A Farsa da boa preguiça

Montagem: Prática de montagem dos Cursos Técnicos em Teatro, Cenografia e Figurino.

William Eduardo Braga Soto[1]

Apesar de ser um aluno universitário cursando Licenciatura em Teatro, enfrentei o desafio de escrever uma crítica teatral sobre o espetáculo "A Farsa da Boa Preguiça", apresentado pela turma do curso técnico em teatro de 2024 da Escola de Teatro e Dança da UFPA, com direção de Karine Jansen e Larissa Latif.

O espetáculo que vamos analisar é uma das obras de mais conhecidas do dramaturgo Ariano Sussana. O personagem principal luta constantemente para sobreviver no sertão, mas também não deixa que patrões tirem proveito dele e o deixe sem seu grande amor pela poesia. Simão usa seu tempo livre para aprimorar seu dom na poesia. Através desse conto a farsa aproveita para relatar vivência e abordar temas bem complexos como produtivismo, capitalismo, aos modernismo culturais superficiais e a falta de solidariedade diante a pobreza alheia.

Quando olhamos para o espetáculo nós percebemos que o Joaquim Simão, esse poeta preguiçoso e malandro, é aquele tipo que quer tudo na vida sem esforço, usando só a lábia para se dar bem, até engana a própria esposa! É engraçado e triste ao mesmo tempo, porque enquanto ele vive nessa esperteza, a mulher dele é todo o oposto: simples, dedicada, sofrida, sempre tentando segurar a barra e torcendo para que ele mude de vida, seja arrumando um emprego ou virando um poeta reconhecido. Isso faz pensar sobre o que vemos na nossa frente, mas não enxergamos! Mas quem vê a cena acaba pensando: "Mulher larga esse homem e vai seguir tua vida com alguém que te ame de verdade, porque quem ama cuida". Chega ser inquietante!

Essa diferença entre eles só mostra muito sobre a desigualdades nas relações e o papel da mulher, que acaba ficando numa posição de submissão e sofrimento por causa da malandragem do marido. E aí ainda tem o vizinho rico, que também é malandro, e um velho safado tentando conquistar a esposa do Joaquim – porque a maioria dos homens com idade mais avançada e com "grana" acha que pode ter qualquer mulher? Essa mistura de interesses amorosos gera um clima de intriga que deixa a história cheia de tensão e provoca a gente a pensar sobre desejo, poder e moralidade.

Um ponto bem interessante e legal é o conflito interno do Joaquim, que fica dividido entre ser fiel e seguir seus instintos baixos, mostrando que a linha entre o certo e o errado não é tão clara assim. Essa luta é o que move a peça, fazendo a gente refletir sobre ética, não só do personagem, mas da nossa vida como um todo, até torcendo que dê tudo certo e ele mude, que possa dar uma vida boa para a mulher.

A peça usa personagens bem complexos, quem não focar na peça não vai entender como chegou a essa situação ou saber por que o Joaquim é assim. O espetáculo ocorreu em dois lugares diferentes, como Teatro experimental Claudio Barradas e Theatro da Paz, ambos também com elencos diferentes, tive a experiencia de ver os dois e analisar o mesmo. Recomendo esta montagem para quem aprecia teatro crítico que mistura crítica social com elementos de comédia dramática.

Com um humor mais cômico, a peça nos faz rir do começo ao fim, tornando-se uma experiência memorável ter reflexão como podemos conectar o teatro com modernidade em relação ao tempos atuais, como por exemplo trazer um meme que viralizou na internet para própria cena. O resultado é um espetáculo leve e divertido que, ao mesmo tempo, leva o público a refletir sobre questões intrigante como: será que é necessário optar em colocar esse tipo de sátira só para que os jovens e adultos frequentem nossas peças? É uma boa pergunta para os antigos críticos teatrais.

As cenas estão recheadas de símbolos e signos metafóricos; durante todo o espetáculo, é possível perceber referências à política, cultura, religião e cotidiano. Essas referências aproximam o público e facilitam a compreensão dos contextos apresentados. Gostaria de destacar algumas falas marcantes, como a de São Pedro — interpretado pela atriz/aluna Ana Carolina, uma mulher negra — que retira uma foto de São Pedro da sua bolsa e diz: "Amor próprio é tudo! Essa é a versão europeia; eles ficam embranquecendo a gente." Também merece destaque a interpretação de São Miguel pelo ator/aluno Mairon Pantoja, que se disfarça e faz uma referência bem-humorada a uma mulher evangélica em seu dia mais comum. Além disso, quando os dois são chamados por Manuel Carpinteiro para voltarem ao céu, descrevem com metáforas as dificuldades de chegar lá usando seus "perspectivos" ônibus. Os atores tiveram liberdade para acrescentar falas que fizessem sentido no contexto da cena, o que contribuiu para trazer uma versão mais satírica e atualizada do texto original.

Em relação à atuação dos alunos, acredito que a maioria se adaptou muito bem aos seus respectivos personagens e trouxe suas próprias interpretações. Alguns ainda demonstraram certa dificuldade em incorporar completamente suas personagens, principalmente no uso do corpo em cena; contudo, é importante lembrar que estamos falando de alunos do primeiro ano da Escola de Teatro e Dança da UFPA. Quanto aos aspectos técnicos — cenário, figurino e sonoplastia — tudo estava muito bem encaixado e organizado. O cenário era simples, mas continha todos os elementos necessários para contar a história de Joaquim Simão. O figurino foi cuidadosamente desenhado e confeccionado. Por fim, a sonoplastia entrou perfeitamente no tempo certo durante toda a apresentação, sem atrasos.

20 de agosto de 2025

[1] Graduando do Curso de Licenciatura em Teatro; crítica teatral produzida como atividade acadêmica da disciplina "Teatralidades Contemporâneas" ministrada pelo professor Edson Fernando.

Ficha Técnica

"A Farsa da Boa Preguiça"

Elenco:

Adria Leticia

Albert Aguiar

Breno Ushôa

Evelyn Sarmento

João Paulo Ramos

Larissa Couto

Marlene Oliveira

Nazaré Figueiredo

Rafél Silva

Roberta Lima

Direção do espetáculo:

Karine Jansen

Larissa Latif

Direção de cenografia:

Iara Souza

Direção de Figurino:

Ezia Neves

Cenografia:

David Galvão

João Caique

Milene Batista

Assistente de Cenografia:

Mateus Barata

Regis Cardoso

Figurinista:

Enzo Gabriel

Exodo Gabriel

Rosario Oliveira

Uarlason Lima

Design e edição e roteiro de vídeo:

Adrinny Oliveira

Ilustrações e edição de vídeo:

Gustavo Sanato

Fotografia e filmagem cênica:

Danielle Cascaes

Fotografia e mobile:

Camila Martins

Elaboração de texto e edição de vídeo:

Evelyn Sarmento

Elaboração de texto:

Alberto Aguiar

Amarildo Pastana

Sonoplastia:

Gutto Ferreira

Lennon Bendelak