A fofoca derramou o feijão para ele não voltar – Por Rui Cunha
Montagem Teatral: A Voz Que Me Resta
Montagem: MEF - Mostra de Espetáculos de Formação do Curso de Produção Cênica da UFPA
Rui Cunha[1]
Sexta, 22 de agosto, uma chuva repentina nos colocando para uma aglomeração que incide em um calor humano desgostoso na sala de recepção do teatro universitário Claudio Barradas.
A peça inspirada na obra "Gota D'Água", de Chico Buarque e Paulo Pontes, sobre Joana, mãe de dois filhos de Jasão que a abandonou para ficar com Alma, filha de um poderoso empresário que comandava as casas da Vila do Meio-Dia e ajudou na gravação da música de Jasão. A Voz Que Me Resta tem como foco a saúde mental feminina, por momentos a peça utiliza de um projetor para transmitir entre as passagens de tempo uma entrevista feita com uma psicóloga abordando as lutas que mulheres sofrem em decorrência do abandono e da violência na sociedade. Conecto para a perspectiva da obra[2] de Lehmann sobre o apontamento político de um teatro dialético para o pós-dramático, onde se pausa a imersão da encenação para um vídeo necessário que desperte uma consciência crítica do público.
Sentei-me em um local privilegiado para ouvir toda essa fofoca que acontecia na Vila do Meio-Dia. Fiquei sentadinho bem do lado da casa de Joana, mas a de Alma também era por ali pelas proximidades, e por sorte também perto de um barzinho com uma banda de músicos ao vivo, uma banda boa demais. Pessoal da vila estava muito bem-vestido, bonito de se ver, só coisa de qualidade. Tenho evitado o álcool então peguei uma água para não engolir seco essa piranhagem que ouvia sobre Jasão.
Mulher guerreira essa Joana, foi tanta humilhação que esse pirangueiro fazia, xingava a pobre, iludia, fazia pressão psicológica, chegou a berrar porque é artista agora que a música emplacou por conta do seu novo sogro. Acusou de ela estar velha, de não ser mais útil, dele ainda estar inteiro e em forma e pipipi pópópó... porém, Joana disse umas boas para ele também, sobre esse bicho não ser um pai e não merecer ver os filhos, e o desgraçado teve a coragem de estapear ela, nossa, me subiu um sangue quando soube, doido para ir atras e derrubar esse maluco que estava de casamento marcado, mas rodeando o boteco e a casa de Joana. Tinha uma mana psicóloga lá também, escutei ela explicando como fica a saúde mental de uma mulher que passa por essas relações de esgotamento, e que em muito das vezes não interferir na briga de marido e mulher se escalona para o pior dos casos, a morte.
Entre risadas, danças e confusões, o que mais tive foi um coração apertado sabendo pelo que Joana passava, deixar de viver sua vida para continuar se importando com aquele um, o bom é que teve um pessoal da vila ajudando-a, o mestre Egeu deu uns bons conselhos e cuidava dos filhos dela quando precisava, as gêmeas idênticas, fofoqueiras Corina e Estela também ajudaram muito a mana, e por quem fiquei sabendo dessa história toda.
Lagrimas deslizaram do meu rosto quando soube de Alma, mulher que ia se casar com Jasão, pagava o preço de nunca ser amada de verdade, então suplicava por pelo menos um pouquinho de reciprocidade, pedia uma demonstração de afeto qualquer, uma palavra de amor se quer vinda de Jasão para poder comprovar os sentimentos que precisava. A dor de perceber que o amor não está sendo correspondido, onde apenas uma das pessoas segura todo o relacionamento e ter que continuar ali sem ter outra escolha nessa necessidade de querer ser amada, o trágico quando as pessoas por demasiados motivos acabam sendo vendadas para o relacionamento que tanto buscavam, agora quer que dê certo, esquecem que o amor não controla, não humilha e o principal não agride, seja verbalmente ou fisicamente. Amar é respeitar, cuidar, acolher... nunca ferir.
A responsabilidade afetiva de Jasão passou longe de onde ele estava, querer se casar com Alma, mas sem amar e ainda assombrar Joana para não deixar com que siga sua vida em paz. A falta de ser transparente, respeitando aos limites do outro, dar uma relação saudável ou ao menos equilibrada sem que caísse tudo só para cima de um. Mas esse aí estava cego pelo próprio nariz.
Jasão chega na fofoca e a banda começa a cantar, num piscar de luzes vermelhas, com meus próprios olhos, vi em câmera lenta, o desgraçado levando um tiro no peito e caindo no chão, uma cena ma-ra-vi-lho-sa de ser ver, mesmo com o susto do tiro. E ali ficou seu ego, sua ganância, sua fama, só lhe restando o chão. Se algum dia aquele amou, daquela vez é como se fosse a última. Agora não paro de ouvir essa frase na minha cabeça, mas tive que trazer escrita para vocês essa fofoca, pois estou sem voz, então digitar foi a voz que me resta.
27 de agosto de 2025
[1] Barcarenense, ator teatral, brincante, cosplayer, discente do curso de Licenciatura em Teatro na UFPA e bolsista pesquisador PIBID Interartes-Teatro pela CAPES/UFPA; Crítica teatral produzida como atividade acadêmica da disciplina "Teatralidades Contemporâneas" ministrada pelo professor Edson Fernando.
[2] LEHMANN, Hans-Thies. Teatro pós-dramático. Trad. Pedro Süssekind. São Paulo: Cosac Naif, 2007.
FICHA TÉCNICA
Direção:
Sofia Alvarez
Assistência de Direção:
Cau Martins
Rosa dos Anjos
Elenco:
AL Gomes,
Ally
Dan Costa
Krystara
Matheus Martins
Rubens Leal
Xviccy
Músicos:
Bruno Ramos
Cau Martins
Igor Diniz
Larih Paes
Rafael Dias
Rosa dos Anjos
Verena Brito
Vitor Colares
Cenografia:
Jully Campos
Iluminação:
Arthur Mello
Figurino:
Elcio Lima
Assistência de figurino:
Igor Quadros
Videomaker:
Dan Costa
Edição de Vídeos:
Dan Costa
Cau Martins
Arte gráfica:
Elcio Lima