A voz que me resta: ecos de resistência no palco – Por Elcio Lima

26/08/2025

Montagem Teatral: A voz que me resta

Montagem: 2ª MEF – Mostra de Espetáculos de Formação (MEF) do curso de Produção Cênica - UFPA

 Elcio Lima[1]

O teatro funciona como espaço de reflexão crítica, denunciando injustiças e desigualdades sociais. Sua dimensão política se manifesta não apenas em discursos explícitos, mas também em narrativas, gestos e encenações que provocam o público a questionar poder, liberdade e responsabilidade coletiva. Um exemplo disso é a peça Gota d'água (1975).

Gota d'água, escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes, é uma adaptação contemporânea da tragédia grega Medeia, de Eurípedes, transposta para um conjunto habitacional popular do Rio de Janeiro. Nessa recriação, a figura de Joana ocupa o lugar de Medeia, enquanto Jasão é transformado em Jasão, um sambista que abandona a companheira para casar-se com a filha de um empresário do ramo imobiliário. Ao trazer o mito para um contexto urbano e periférico, a obra ressignifica a tragédia clássica, aproximando-a da realidade brasileira marcada pela desigualdade social, pela marginalização dos pobres e pelas relações de poder que atravessam o cotidiano das classes populares.

Além da dimensão dramática, a peça carrega um forte teor político. Escrita no período da ditadura militar, Gota d'água denuncia de forma alegórica a opressão, a manipulação e o jogo de interesses das elites econômicas e o povo, revelando como os dramas pessoais são inseparáveis das injustiças coletivas.

A Voz que me resta, livre adaptação da obra supracitada, apresentada nos dias 22 e 23 de agosto, no Teatro Universitário Cláudio Barradas como parte da 2ª Mostra de Espetáculos de Formação (MEF) do curso de Produção Cênica da ETDUFPA, afirma-se como uma encenação que dialoga diretamente com o presente, ainda que ancorada em um olhar para o passado. Sob a batuta de Sofia Alvarez, o espetáculo se revela político por sua própria existência, pois ao revisitar temas de opressão, injustiça e desigualdade em tempos sombrios como os atuais, reafirma a potência do teatro como espaço de denúncia e reflexão crítica. A narrativa ressoa como um chamado à memória e à resistência, mostrando que as feridas sociais ainda permanecem abertas, e que o palco pode se constituir em lugar de enfrentamento simbólico.

A caracterização visual da montagem demonstra esmero e pesquisa cuidadosa na sua interpretação do final dos anos 1970, com a paleta de tons marrons, laranja, caramelo e azuis que conferem ao espetáculo uma atmosfera nostálgica e ao mesmo tempo crítica, situando-o em um momento histórico de transição e efervescência política. A relação de Jasão com Joana traz à tona, de modo contundente, a denúncia à violência contra a mulher, evidenciando como o abandono, a manipulação e a imposição de poder masculino seguem presentes em nossa sociedade. A presença dos músicos, afinados e em sintonia com o andamento da dramaturgia, ampliou a força expressiva da montagem, conferindo ritmo e emoção à narrativa, além de sustentar uma camada poética que intensifica o impacto estético da peça.

O elenco de A Voz que me resta demonstra uma atuação um tanto carregada, porém dedicada, marcada pelo empenho de artistas em constante aprendizado que se lançam no desafio de sustentar a densidade de um texto carregado de tensões políticas, sociais e afetivas. Há, em cena, a sensação de um grupo que caminha sobre a corda bamba: a todo instante equilibrando a emoção, o gesto e a palavra para manter viva a dramaticidade da narrativa. Esse esforço coletivo confere autenticidade à encenação, revelando um processo em que o risco se torna parte constitutiva da entrega artística, reafirmando a força do teatro como espaço de experimentação e de crescimento.

As escolhas da diretora Sofia Alvarez reforçam essa perspectiva de ousadia. Optando por uma encenação arriscada, ela não apenas enfrentou a densidade do texto, mas encontrou meios de sustentá-lo sem se perder em excessos. Sua condução destaca-se pela coragem de apostar na tensão contínua, valorizando tanto a expressividade corporal quanto a musicalidade da cena, de modo a manter o público imerso em uma atmosfera intensa. A firmeza em suas decisões de encenação garante a coesão estética e política da peça, transformando o risco em potência criativa e deixando claro que o teatro de formação pode, sim, se colocar em diálogo maduro com temas urgentes e complexos.

A encenação de A Voz que me resta também apresentou elementos que dividiram opiniões e suscitaram debate sobre suas escolhas estéticas e funcionais. A disposição do palco em formato de corredor, com três espaços cênicos distintos, trouxe dinamismo e pluralidade visual, mas em alguns momentos dificultou a percepção integral das ações, dependendo do ponto de vista da plateia. Essa configuração reforçou a proposta de fragmentação e multiplicidade de olhares, mas exigiu do público uma atenção redobrada, o que para alguns se revelou instigante, enquanto para outros se tornou dispersivo.

Outro aspecto que gerou discussões foi a sobreposição de canto e diálogos. Apesar de reforçar a tensão poética da cena e trazer densidade à narrativa, em certos trechos essa escolha acabou prejudicando a clareza da compreensão textual. Da mesma forma, a projeção da entrevista com a psicóloga sobre violência contra a mulher configurou-se como um recurso potente de distanciamento crítico, em sintonia com o teatro brechtiano, mas sua localização no espaço comprometeu a visibilidade e o impacto esperado. Essas questões, longe de enfraquecer a montagem, apontam para o caráter experimental da proposta e para a disposição da direção e do elenco em arriscar, ampliando o diálogo entre estética, política e recepção.

A Mostra de Espetáculos de Formação em Produção Cênica da ETDUFPA configura-se como um espaço fundamental de experimentação, no qual aspirantes a diretores e diretoras de teatro têm a oportunidade de colocar em prática suas concepções de encenação e de gestão de equipe. Trata-se de um momento formativo em que o aprendizado extrapola a sala de aula, permitindo que os estudantes enfrentem a complexidade real do fazer teatral, articulando aspectos estéticos, criativos e organizacionais. Esse processo revela não apenas a singularidade das propostas artísticas, mas também a capacidade de liderança, negociação e escuta mútua dos participantes, competências essenciais ao campo das artes cênicas.

O caráter peculiar dessa mostra está no fato de não haver recursos institucionais disponíveis, a não ser o acesso ao espaço do próprio teatro. Essa condição impõe aos grupos o desafio de criar estratégias de produção, mobilizar parcerias e explorar soluções inventivas, estimulando a autonomia e o pensamento crítico sobre o papel do artista-produtor no cenário cultural. Nesse sentido, a mostra não apenas reflete a potência criativa dos estudantes, mas também aponta para a realidade de muitos processos de produção teatral no Brasil, em que a escassez de recursos é enfrentada com engenhosidade, coletividade e resistência.

Diante de tantos desafios, Sofia Alvarez demonstrou que fazer teatro universitário não é fácil, mas também não é impossível quando se estabelece uma relação pautada no diálogo e no comprometimento com a causa. Sua direção evidenciou que, mesmo em condições adversas, é possível sustentar uma proposta estética e política consistente, desde que haja entrega coletiva e confiança no processo criativo. A montagem de A Voz que me resta prova que a força do teatro de formação reside justamente nessa capacidade de enfrentar obstáculos e transformá-los em matéria de aprendizado e de invenção.

No entanto, a experiência também levanta uma reflexão necessária: a Escola de Teatro e Dança precisa rever a culminância de seus cursos, sobretudo no que diz respeito ao suporte financeiro, sem o qual as propostas artísticas acabam sendo limitadas em seu alcance e na produção que uma montagem desse porte demanda. Apesar desse cenário, Sofia soube gerir uma equipe numerosa, conciliando diferentes funções, talentos e perspectivas, e garantindo que cada integrante tivesse seu momento de brilho. Essa liderança colaborativa reforça a importância da direção como mediação entre criação e coletividade, consolidando um trabalho que se afirma não apenas como espetáculo, mas como gesto político e pedagógico dentro da universidade.

Em tempos de silenciamento e retrocessos, a voz que nos resta é justamente aquela que insiste em ecoar no teatro, na arte e nas ruas, lembrando que, mesmo diante da opressão, ainda podemos falar, cantar e denunciar.

26 de agosto de 2025

[1] Elcio Lima é diretor do Grupo Presságio, figurinista e estudante do curso de Licenciatura em Teatro; também colabora com o Projeto de Pesquisa "O Clown Nosso de Cada Dia" e com o Projeto de Extensão "Tribuna do Cretino".

FICHA TÉCNICA

A Voz que me resta

Adaptado de "Gota d'água", de Chico Buarque e Paulo Pontes

Direção

Sofia Alvarez

Elenco

Ally, AL Gomes, Dan Costa, Kristara, Matheus Martins, Rubens Leal e Xviccy

Músicos

Bruno Costa, Cau Martins, Igor Diniz, Lariih Paes, Rafael Dias,

Rosa dos Anjos, Verena Brito e Vitor Colares

Assistentes de direção

Rosa dos Anjos e Cau Martins

Cenografia

Jully Campos

Figurino

Elcio Lima

Iluminação

Arthur Melo

Maquiagem

Ada Cllima e Safira Clausberg

Assistente de cenografia

Gabi Nunes

Assistente de figurino

Igor Quadros

Videosmaker

Dan Costa e Adryny Oliveira

Edição de vídeos

Cau Martins e Dan Costa

Assistente de Produção

Mirela Taize