Olhar de Criança – Por Frö-rait

28/06/2023

Montagem teatral: As histórias que meu guarda-roupa guarda

Solo Teatral de Nanan Falcão 

Frö-rait[1]

Eu começo assistindo a partir de seus olhos. Os olhos dela, da criança, talvez mais atentos do que o meu observando sua mãe. Sabia tudo o que estaria por vir, repetia suas falas e tentava chamar sua atenção. Atenta.

O meu olhar sobre esse espetáculo partiu daí, da primeira linha de afeto, de um laço, de agulha. E vai de encontro a um antigo guarda-roupa com rodinhas para bailar.

A atriz (Nanan Falcão) abre o espetáculo assim, bailando, e nos conta um pouco sobre a história da roupa trançando uma linha do tempo, desde uma peça usada para se proteger (pelo nossos ancestrais) até a Moda, símbolo de status e poder ligada às produções sociais geradoras de distinção e imitação que classificam as classes sociais contemporâneas. De maneira leve e bem-humorada a atriz vai desvendando o grande guarda-roupa e os mistérios que ele guarda, entrelaçando também sua própria história guardada entre caixinhas, agulhas, roupas e o grande livro da costura (que é grande mesmo).

As roupas contam histórias, guardam cheiros, aquecem, envaidecem...

Ao lembrar de uma história a atriz entra no guarda-roupa, atravessando-o como se fosse um portal para o passado e reencontra sua criança. Uma parte de si que cresceu ali, dentro de guarda-roupas como este explorando cada detalhe deles, abrindo gaveteiros e descobrindo os segredos de seus familiares.

Em uma dessas histórias acabo lembrando de uma minha, guardada bem lá no fundo de um gaveteiro, esquecida. Então, me descosturo de sua trama e vou de encontro com a minha (por alguns instantes) reencontro minha criança, bem naquela fase mágica da criança que quer virar o mundo de cabeça pra baixo, mexer em tudo e claro, perguntar mil coisas.

Nessa bagunça lembro que quando eu era criança gostava de bisbilhotar, de saber o que a minha casa escondia e também escalar as paredes do corredor. Mas o que eu adorava fazer era brincar com o meu pai, a gente tinha uma brincadeira interna no qual eu não me lembro bem o porquê que começou, porém todo dia de manhã às seis horas eu me escondia numa cômoda que tinha lá em casa, era de madeira e tinha quatro gaveteiros junto com uma portinha. E era nessa portinha que, bisbilhotando, descobri que eu cabia certinho lá dentro e foi nesse lugarzinho que começou, eu me escondia do meu pai, esperava ele chegar para me procurar, mas logo, logo ele me achava. Minha mãe cagueta que era, contava pra ele onde era o meu esconderijo secreto, porém, ele sempre fazia um suspense para me achar ou eu tinha 5/6 anos e não via o tempo passar...

Para mim o guarda-roupa é isso, um grande condutor de memórias, guarda tanta coisa que eu pude resgatar essa lembrança lá do fundo. Mas há guarda-roupas que são pesados demais para carregar por aí e precisamos fazer a nossa mala, entender o nosso passado e parar de carregar coisas que não nos pertencem mais (escolher o que é necessário e partir). Assim como a atuante que cresce no decorrer das cenas e entende quem é.

A roda da fortuna gira, a espiral nos movimenta e a atuante segue seu próprio caminho.

27 de junho de 2023

[1] Graduando de Produção Cênica Etdufpa; Participante da oficina de crítica teatral "Exercícios de escrituras" – Projeto Tribuna do Cretino;  

Ficha Técnica:

As histórias que meu guarda-roupa guarda

Atuação, Dramaturgia e Produção:

Nanan Falcão

Direção:

Aníbal Pacha

Iluminação e Técnica:

Thiago Ferradaes

Figurinos:

Ila Falcão, Nanan Falcão e Maurício Francco

Consultoria artística:

Mauricio Francco

Apoio:

Casarão do Boneco