Um Sonho de Encantarias – Por Ana Clara Mesquita de Oliveira

27/08/2025

Montagem Teatral: Encantarias: Teatro das Águas, Poesia da Vida

Montagem: Escola de Teatro e Dança da UFPA – ETDUFPA.

Ana Clara Mesquita[1]

O espetáculo Encantarias, produzido pela Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (ETDUFPA) em 2023, nos surpreende pela forma como transforma o palco em um espaço de celebração poética do imaginário amazônico ribeirinho. Sob a direção de Andréa Flores e Marluce Oliveira, a montagem se apresenta como uma experiência sensível em que o teatro se confunde com a própria água do rio: fluido, mutável e cheio de mistérios encantados.

O que mais me chamou atenção, tanto como espectadora quanto como aluna, foi a potência visual da cena mesmo que os recursos fossem claros como a água ­­­­­­— não havia nenhum jogo de luz complexo com incontáveis refletores, figurinos ou maquiagens extravagantes, ou um cenário ornamentado e cheio de objetos cênicos — a cenografia e os figurinos, frutos de um trabalho coletivo dos cursos técnicos da instituição, não apenas servem como ornamento, mas se integram organicamente à dramaturgia de forma simples, singela e fluida, mas muito potente. Durante quase todo espetáculo, tive a sensação de estar atravessando uma margem ribeirinha ao cair da tarde, em meio a penumbra, quando a luz tão tênue e a névoa criam imagens tão oníricas que só poderiam pertencer a um sonho, ou uma memória distante. Foi impossível não me sentir imersa — quase fisicamente, talvez se eu fechasse os olhos eu tivesse me sentido flutuar nas águas do rio — dentro desse universo simbólico.

A montagem também trabalha com uma forte presença coral. A atuação dos estudantes forma um corpo coletivo em constante metamorfose, representando tanto seres humanos quanto entidades encantadas. Essa oscilação presente entre o humano e o mítico dá ao espetáculo um caráter ritualístico muito forte. Senti um arrepio em todas as cenas em que vozes se sobrepunham em cantos e murmúrios, criando uma atmosfera de encantamento e estranhamento ao mesmo tempo, que só poderia pertencer a um sonho, ou aos ecos e sons de um rio que guarda coisas que jamais descobriremos. A experiência era mais do que narrativa: era sensorial, era mágica, era encantada.

Agora, um ponto que considero fundamental — sou obrigada a comentar — é a escolha do espetáculo por não seguir uma linearidade dramática clássica. A encenação se constrói em fragmentos, como imagens sucessivas que formam uma árvore poética, ou, simplesmente, como um sonho, um daqueles sonhos em que acordamos nos perguntando se não havia algo de místico ou real naquilo. Esse recurso aproxima Encantarias de princípios do teatro pós-dramático, na medida em que privilegia a experiência estética, a polissemia dos signos e a quebra da centralidade do texto. Em vários instantes, para não dizer no espetáculo inteiro, me vi mais interessada em "sentir" a cena do que em "compreender" racionalmente, mais interessada em sentir a correnteza do rio e as histórias que ele me contava do que em compreender para onde ele estaria me levando. Perceba como foi quase impossível para mim não fazer metáforas sobre rio e água para falar sobre qualquer aspecto dessa montagem incontáveis vezes — eu culpo a imersão absurda do espetáculo por isso — pois mesmo depois de tanto tempo ter se passado desde que pude assistir essa apresentação, as imagens e vozes seguem vivas em minhas memórias, como se eu me lembrasse de um sonho muito estranho e emotivo que tive em uma tarde qualquer, mas que me marcou até os dias de hoje.

Por fim, antes que eu me perca nas minhas divagações sobre rios e sonhos ainda mais, Encantarias é também um gesto político e cultural. Ao trazer para o centro da cena o imaginário das águas amazônicas e suas entidades míticas, a montagem reafirma a importância de valorizar saberes e sensibilidades locais. Como espectadora, saí impactada, como aluna, saí inspirada, e como sonhadora, saí reflexiva, com a sensação de ter testemunhado um ritual que honra a memória coletiva do povo ribeirinho e transforma o palco em território de resistência poética, ou um sonho que pareceu me transportar para um aglomerado de diferentes vidas, histórias e memórias cujas dores e encantarias jamais me pertenceram, mas que agora eu as conheço.

27 de agosto de 2025

[1] Graduanda do curso de Licenciatura em Teatro – UFPA; crítica teatral produzida como atividade acadêmica da disciplina "Teatralidades Contemporâneas" ministrada pelo professor Edson Fernando.

Ficha Técnica:

Encantarias

Elenco:

Arth, Bianca Brabo, Breno Uchôa, Carolina Rodrigues, Dan Couto, Diogo Lira, Dudu Domingues, Eder Juan, Edson Elias, Eliane Gomes, Inaê Nascimento, Jéssica Ribeiro, Kate Por Deus, Leonardo Verçosa, Mailson Siqueira, Malu Guedelha, Mateus Barata, Meysse Pessoa, Nicolas Wilker, Pedro Couto, Racquel Prudente, Rapha Rodrigues, Raul Lima, Renan Borges, Rosa Rio, Rubens Leal, Ryan Pardauil, Safira Clausberg, Seu Ra7, Sidiane Nunes, Vagner Mendes, Victor Menezes, Vitória Lúcia, Willian Marignan
Direção e Encenação:

Andréa Flores e Marluce Oliveira
Dramaturgismo:

Jhonathan Navegantes
Direção de Movimento:

Xviccy
Direção de Palco:

Lilly Silva
Direção de Visualidade:

Grazi Ribeiro e Paulo De Tarso Nunes
Direção Musical:

Marcos Adles, Sofia Alvarez e Thales Branche
Músicos de Cena:

Luany Guilherme, Marcos Adles, Pedro Miranda e Sofia Alvarez
Composições Originais:

Arth, Edson Elias, Rapha Rodrigues e Thales Branche
Preparação Corporal:

Xviccy, Lilly Silva E Denilene Navegantes
Estagiários:

Xviccy, Lilly Silva, Denilene Navegantes,
Jhonathan Navegantes E Janne Medeiros
Curadoria De Cenografia:

Paulo De Tarso Nunes
Cenógrafos:

Leeandra Lee, Victor Moura, Elian Mágno E Dani Franco
Assistentes De Cenografia:

João Victor De Alcântara, Murillo Vieira E Lucas Lira
Curadoria De Figurino:

Grazi Ribeiro
Figurinistas:

Allyster Fagundes, Regiane Cardoso, Bruno Sacramento, Izabella Alves, Kedma Castro E Maite Castro
Assistentes De Figurino:

Thaise Farias, Vitória Cunha, Tiana Ferreira e Enzo Gabriel
Apoio de Figurino:

Izidório Neto